sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Brás Cubas vota em Bolsonaro. E Machado de Assis?


          Os vermes que roeram as frias carnes do cadáver dele, Brás Cubas, delataram a um juiz de província qual será o voto do ilustre defunto autor no dia 28 de outubro próximo: Bolsonaro! O juiz ouviu o depoimento de Brás e, ato contínuo, certo da importância dessa informação para influenciar eleitores indecisos a respeito do pleito que se aproxima, vazou a transcrição para a imprensa, como de costume. Nela se lê assim:

“Testemunha jurada aos Santos Evangelhos na forma da lei, prometeu dizer a verdade, principalmente a pós-verdade; declarou chamar-se Brás Cubas, memorialista supimpa, profissão vive de rendas, idade duzentos e treze anos; perguntado sobre o pleito eleitoral de domingo próximo, disse que votaria em Jair Bolsonaro, sua alma gêmea; disse mais, que sabia por ouvir dizer que, ao falar de sua esposa, o dito candidato usa repetir o que ele, Brás, disse certa vez de sua amante, Virgília: “era o travesseiro do meu espírito, um travesseiro mole, tépido, aromático, enfronhado em cambraia e bruxelas. Era ali que ele costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, ou até dolorosas. E, bem pesada as cousas, não era outra a razão da existência de Virgília”; também sabe por ouvir dizer que o candidato citado pretende, no governo, colocar em prática a mesma política dele, Brás, em relação aos negros: “Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, --algumas vezes gemendo, --mas obedecia sem dizer palavra”; se disser algo, responder-se-á, “Cala a boca, besta!”; perguntado sobre os direitos das empregadas domésticas, disse a testemunha que o programa do candidato em tela é idêntico ao que adotou enquanto viveu e depois, nos aposentos eternos: foram chamadas ao mundo para “queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia”; perguntado como achava que o candidato deveria lidar com ativistas que se  opuserem ao seu possível futuro governo, disse a testemunha, ruborizado, subindo o tom de voz, que precisam ser mandados ao calabouço, a prisão dos escravos, “donde eles [descerão] a escorrer sangue”; perguntado, por fim, qual o principal ponto de contato entre as filosofias de vida dele, testemunha, e a do candidato Bolsonaro, disse, comovido, que ambos se afeiçoam à “injustiça humana”, gostam de contemplá-la, “atenuá-la”, “explicá-la”, “ao sabor das  circunstâncias e lugares”; e mais não disse nem lhe foi perguntado, com o que o juiz de província mandou-me lavrar este auto, de cuja verdade dou fé (...)”.

Presente ao interrogatório, Machado de Assis permaneceu calado num canto da sala, fingindo que não estava ali. Os vermes o perceberam e lhe fizeram a pergunta fatal: “E o Senhor, Criador desta Criatura, votará em Bolsonaro?”. Machado de Assis gaguejou, não disse que sim, nem disse que não. Diante da insistência dos vermes, respondeu enigmático, a caminho da porta de saída: “É sabido desde a mais remota noute dos tempos que no dia 28 de outubro de 2018 Hércules realizará o seu DÉCIMO-TERCEIRO trabalho. Boas Noutes!”.

 Sidney Chalhoub, 25/10/2018






segunda-feira, 21 de maio de 2018

Uma revolução ruidosa, mas pensada, e que precisa ser continuada


        Foram 4 dias de trabalho puxado e intenso, quase 12 horas por dia, participando do II Seminário Internacional Histórias do Pós-Abolição no Mundo Atlântico. Liderado pelo GT Emancipações e Pós-Abolição, da Anpuh, particularmente pensado e dirigido por um grupo de historiadoras e historiadores negros, dentre os quais alguns bem jovens, doutorados há pouco tempo, ou que ingressaram há pouco nas universidades públicas como professores. Um seminário com chamada pública de trabalhos, e mesas-redondas montadas com critérios de diversidade e representatividade, contrapondo-se ao tradicional e engessado modelo de seminário com “convidados ilustres” (embora tenha aparecido um ou outro com essa postura… urgh). O comitê científico, “gênero-equilibrado”, era de perfil também majoritariamente negro, com ampla representação não só regional, mas também geracional. 27 painéis, com ao menos 4 trabalhos cada, 3 mesas-redondas, além da Iniciação Científica: numa conta rápida umas 140 apresentações. Fico muito agradecida ao destino por ter participado desse seminário. Lá estive em função de uma demanda da direção da Casa Rui que julgava importante que estivéssmos envolvidos na discussão crítica dos 130 anos de abolição. Agradeço enormemente a acolhida de nossa instituição, e reafirmo o que disse na mesa: temos na rua São Clemente muitas coisas preciosas, como um acervo público de documentos, bibliotecas, patrimônio intelectual, mas nos faltam pesquisadores e tecnólogos negros. Numa maratona, movida por extrema sede por aprender mais daquelas experiências, devo ter assitido cerca de 50 pessoas, em diferentes momentos da formação e trajetória, com trabalhos que resultam do que acho que podemos chamar de revolução de paradigmas na produção do conhecimento sobre nós mesmos e nossa história.
            Revolução que não é silenciosa e sim, ruidosa. Mas revolução pensada, gestada com cuidado e atenção, e que agora precisa ser continuada. Se a ponta do iceberg é o ano de 2003, com o início mais sistemático das ações afirmativas em diferentes áreas, a história dessa revolução é bem anterior. Olhando a avalanche que nos assola a todos, e buscando ajudar a segurar os pilares das políticas públicas de investimento em educação e pesquisa, dentre as quais as cotas e a renovação dos currículos, é inevitável lembrar da famosa metáfora do período imperial, Ação/Reação/Transação, mas com outras direções políticas que não a famosa conciliação entre liberais e conservadores. Porque não queremos o liberalismo com escravidão. A Ação que vemos na mudança no perfil dos estudantes e profissionais, nas agendas de pesquisa, para quem já era professor e pesquisador, vem cheia de potência. A Reação é, ao invés de ir na direção oposta, e “parar o carro da revolução” (o que quer que fosse um carro na época do Bernardo Pereira de Vasconcelos), tentar pular pra dentro dele e seguir na luta antirracista. Aprendi que para o GT, diferente do que eu própria tinha imaginado, não se trata só do período pós-abolição, entendido cronologicamente. E que o conceito de “emancipações” busca lidar com experiências e situações de diferentes épocas. Num mesmo painel, o vaqueiro Raimundo, da Balaiada, falando do “povo de cor”, junto com as propostas historiográficas de Beatriz Nascimento, e ainda as trajetórias de Clovis Moura e Eduardo de Oliveira e Oliveira. Trabalhos de iniciação científica feitos com maestria, questões relevantes, e sensibilidade política. Vocês sabiam que após o fim da escravidão, mulheres mães, na região mais rica do Brasil (Vale do Paraíba em SP), eram classificadas pelos juízes (alô poder judiciário, discricionário e elitista, os menines da IC tão de olho em vocês) como “eram escravas de sicrano” ou “pertenciam a fulano” – notem o verbo no passado imperfeito – e se apropriavam de seus filhos, alegando que as mesmas não tinham capacidade ou moralidade para cuidar dos mesmos? E que diante dos argumentos das mães, que entravam em processos judiciais intermináveis, perpetuavam a apropriação? E as diferentes formas e expressões dos associativismos negros, em tempos diferentes, vocês conheciam seu alcance e dimensão? Que a lei que institui o ensino de história e cultura afrobrasileira foi defendida por décadas? Que os portugueses investem uma fortuna para construir um museu interativo sofisticadíssimo, no Porto, onde os visitantes viajam num barco virtual, chegam a uma senzala e encontram por lá … um singelo jogo de capoeira (fiquei chocada, eu sei, sou ingênua demais).  Que o famoso “Padrão dos Descobrimentos” em Lisboa pode abrigar uma exposição chamada Racismo e Cidadania que no fundo só faz enraizar o racismo, pois não discute as pautas reais de quem o enfrenta? E a oposição entre trabalho escravo e trabalho livre, como se mantém, ao considerar que já no século XX, moradores de Sergipe vão trabalhar em enorme fábrica de tecidos na Bahia, em troca de praticamente nada?
            Uma outra questão crucial que volta e meia aparecia, talvez ainda sem uma formulação mais sistemática, mas que acho que é a chave para novas mudanças conceituais, é a relação raça/classe. O fato do seminário ter acontecido no espaço da Fundação Getúlio Vargas foi especialmente significativo para explicitá-la. Um contraste gritante entre os engravatados, brancos, engomados, em corredores aclimatados e atapetados, e a elegância majestosa e colorida que ia para o nono andar. Numa das salas atapetadas e aclimatadas, vi uma caixa de acrílico, lacrada, como uma urna, onde se lia “Avaliação dos Professores”. Os alunos podem submeter ali, aparentemente, o que quiserem. Donde se conclui que a cultura política para o debate e resolução de conflitos pela conversa franca ou num debate aberto é zero.  As jongueiras trouxeram um alento, mostrando outros saberes e usos da palavra. O genocídio dos jovens negros pela polícia (média de 20 assassinatos por semana em Salvador), a violência crescente a que está exposta a comunidade quilombola do Bracuí, violência alimentada pelo consumo de cocaína pelos milionários que vão para suas ilhas, praias particulares e mansões em Angra dos Reis, apontam “A liberdade não ficou do nosso jeito, quero nossa liberdade, cadê nossos direitos?”. É tão desesperador quando buscamos combater o racismo junto com a perspectiva de quem o enfrenta diretamente, que só mesmo uma revolução.
           


Ivana Stolze Lima (Casa Rui Barbosa e PUC-Rio)
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terça-feira, 17 de abril de 2018

Lula, os passados e os futuros da experiência democrática no Brasil

                                                                                   
O ato político que teve lugar na manhã do sábado 7 de abril pode ser visto como um resultado imprevisto de um mandado de prisão expedido às pressas. Com certeza, para muitos, foi um resultado indesejado. Deve ter funcionado como um lembrete ao juiz que o assinou (e a outros agentes públicos) de que suas decisões costumam incidir na realidade de formas que insistem em não corresponder às suas intenções e projetos. Este foi o final provisório de um processo judicial  manchado por arbitrariedades, marcado uma indissimulável perseguição a uma força política específica, e alimentado pelas fantasias de seu banimento total.

            Essas circunstâncias só aumentam a importância da rara manifestação política do sábado 7 de abril. Em frente ao edifício da sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, Lula falou a uma emocionada multidão que lembrava aquelas outras multidões, há quarenta anos atrás. O discurso em que anunciou sua decisão de se apresentar ao juiz para “transferir a responsabilidade” aos que o perseguem, frustrando aqueles que esperavam vê-lo no papel de um réu acuado, se tornou expressão da força do capital político que surpreendentemente continua associado à sua trajetória e ao PT, resistente à longa perseguição midiática e judicial. A presença de presidenciáveis de dois outros partidos políticos de esquerda para apoiá-lo e ser levantados pela sua mão como o futuro da esquerda no Brasil reforça este sentido político.

            Ao se dirigir a este público, Lula fez um balanço de sua aprendizagem política, e com isso, também da experiência da esquerda brasileira nos últimos quarenta anos. Seu ponto de partida foram as greves de 1978-1980, momento em que a afirmação da autonomia e da capacidade histórica da classe trabalhadora brasileira surgiu como um elemento novo aos olhos dos contemporâneos. As greves questionaram o lugar-comum das explicações acadêmicas e políticas daquele momento de que a classe trabalhadora, derrotada pelo golpe de 1964, era débil, vulnerável a cooptações e práticas populistas, e terminava sempre presa do Estado e de partidos políticos. Num momento de desgaste da ditadura militar, os chamados novos movimentos sociais ampliavam o campo da política, conectando-a com a vida cotidiana.

            O surgimento de Lula como liderança sindical no final dos anos 70 marcou o começo de uma estratégia política baseada na construção de uma esquerda democrática no Brasil.  Nas décadas seguintes, o protagonismo do PT foi determinante no período mais longo em que um projeto de esquerda conseguiu ser parte da vida democrática institucional na história do Brasil.

            Em seu discurso do dia 7 de abril, Lula interveio ativamente nos sentidos em disputa daquela história. Uma vez mais, recordou sua experiência como presidente do sindicato durante a ditadura militar brasileira. Cercado de alguns dos principais protagonistas daquela experiência  de organização política, como os padres das comunidades eclesiásticas de base, além dos próprios operários metalúrgicos que se dirigiram ao sindicato ao terminar o turno da tarde, Lula destacou dois eixos de sua formação política: por um lado, os encontros entre intelectuais e operários que marcaram a formação da CUT e do PT; por outro, a aprendizagem da greve.

            O relato se deteve em uma das greves de 1979, na que Lula e a direção sindical, ao avaliar não existir organização suficiente para manter o conflito, não conseguiu convencer suas bases a entrar num acordo com os patrões da indústria automobilística, “o melhor possível”, em sua opinião: era 15% de aumento, sem perder férias nem o 13o salário. Terminaram pagando o preço de passar um ano sendo vistos como pelegos pelos operários. No ano seguinte, a decisão da greve seguiu a vontade da base: a nova paralisação foi sustentada por uma “densa trama relacional” construída nos bairros, nas assembleias e nas igrejas, e expressado em piquetes, que de resto não eram tão diferentes aos que existiram antes de 1964. (ver Paulo Fontes e Francisco Macedo, “Piquetes como repertório: organização operária e redes sociais nas greves de 1957 e 1980”, Topoi, 18, 34, 2017). Derrotada depois de 41 penosos dias de luta, que incluíram a primeira prisão de Lula, a greve terminou sendo vitoriosa, já que permitiu construir a organização posterior. A analogia era dirigida à multidão que não o queria preso pela segunda vez: a prisão seria mais uma pequena derrota; um passo para construir a luta futura.

            Para além dessa intenção política imediata, a reavaliação de Lula dos ensinamentos da derrota de 1980 expõe um velho dilema que ganha atualidade e urgência: frente a um poder judiciário que se deixa amedrontar por ameaças militares de outros tipos e que não hesita em rasgar princípios constitucionais que sustentaram a estabilidade deste último período, como continuar apostando pela política democrática?      
      
Quando o discurso do moralismo anticorrupção tende a diminuir cada vez mais o lugar da política e ajuda a criar as condições para a violência fascista na vida cotidiana brasileira, Lula ratifica suas convicções de que  o PT “não nasceu para ser um partido revolucionário, nasceu para ser um partido democrático e levar a democracia às suas últimas consequências”. (A verdade vencerá, ebook, Ed. Boitempo, 2018)

            Historiadores são gente treinada para desconfiar das analogias históricas, que correm o risco de se tornar unívocas e simplificar processos que merecem ser analisados em seus matizes e complexidades. O PT de 2018 e Lula, aos 72 anos, estão muito distantes daquela experiência política que deslanchou em 1980. O caminho iniciado pela luta pela democracia e os direitos dos trabalhadores nos levou muito mais longe do que aqueles metalúrgicos/as e sociólogos/as que os acompanhavam jamais se atreveram a sonhar. Mas o ato do 7 de abril mostrou que a força e as dificuldades dessa experiência política da esquerda merecem ser entendidas, de forma rigorosa, sem concessões e sem condescendência, à luz da história peculiar de um dos países mais desiguais do planeta. Seria possível analisar também a derrota de uma prática de alternância democrática à luz daquela experiência e dessa aprendizagem?

            Uma resposta que reponha a velha oposição entre uma postura revolucionária e uma esquerda morna e negociadora, por exemplo, não condiz com a riqueza dessa experiência histórica. Ela não dá conta de descrever o que há de novo numa figura política que conseguiu se construir como o “único  mediador entre elite e massas”, o único que conseguiu reuni-las, por um tempo, em torno de um só projeto político, nas precisas palavras do sociólogo Leonardo Avritzer, (“A prisão do único mediador entre elites e massas no Brasil”, GGN, 06/04/2018).

    A trajetória de Lula, e suas próprias reflexões sobre ela, nos dá pistas para propor periodizações da construção de um campo de esquerda no último período democrático brasileiro. Ela terá que contemplar a combinação entre a afirmação da autonomia e da capacidade política da classe trabalhadora brasileira, terá que passar pela aposta da política democrática institucional, ponderando suas consequências, limites e conflitos. Em 2018, sua prisão e a ameaça de um candidato presidencial identificado com a extrema direita e com a ação de milícias paramilitares abrem um novo período de indeterminação. Por enquanto, podemos  ir tirando algumas lições de tudo isso. Entre elas, a de que as experiências históricas não deixam de informar e iluminar as futuras lutas de formas que sempre nos surpreendem, independente do que vemos, e do que não queremos ver.
Cristiana Schettini (CONICET/ IDAES-UNSAM)

sábado, 31 de dezembro de 2016

Ari, Arivaldo, meu pai


Paulo Fontes (Departamento de História da UFRJ)

As disputas de Roosevelt com a Suprema Corte Americana, a polarização política que mergulharia a Espanha numa sangrenta guerra civil, a escalada de leis e medidas repressivas na Alemanha nazista, as lutas de Gandhi pela independência da Índia, nada disso, nenhuma dessas notícias, nem mesmo o estado de sítio decretado por Getulio Vargas meses antes, eram dignos de atenção ou interesse no humilde lar no interior de Sergipe. Naquele dia 15 de fevereiro de 1936, toda energia e expectativas de seu Zeca e, principalmente, de Dona Afra, estavam concentradas no nascimento de mais um rebento da família, já bem numerosa, do casal de agricultores. Nascia Arivaldo de Brito Fontes, desde logo alcunhado carinhosamente como Ari.

O menino nasceu saudável e forte. Seu olhar expressivo e sorriso maroto seriam marcas por toda a vida. Como para todos por ali, o trabalho começou cedo, na roça. Mas, o mundo não tardaria a chegar para o pequeno Ari. Dentre suas lembranças de garoto, ele sempre recordaria a banda do coreto da praça principal de Campos do Rio Real (então, recém renomeada como Tobias Barreto por um decreto de Vargas em homenagem ao ilustre intelectual local) tocando músicas de Louis Armstrong e Glenn Muller. Lembraria também do mapa da Europa pintado no chão da mesma praça, enquanto o rádio transmitia notícias da tomada da Normandia pelos Aliados e do avanço das tropas soviéticas em direção a Berlim, em meio aos apupos e vivas dos locais.

Arivaldo também não tardaria a partir para o mundo. Seguindo os passos de milhares e milhares de migrantes nordestinos, mas mais especificamente dos seus irmãos mais velhos, Ari chegou ao Rio de Janeiro em meados dos anos 50. No futuro, São Paulo seria seu amor (com seu orgulhoso e apurado senso de direção e localização, conheceria a cidade como poucos), mas o Rio nunca deixaria de ser sua paixão.

Irmão mais novo, ainda adolescente, foi amparado por uma extensa rede familiar e de conterraneidade. Talvez por isso tenha escapado ao duro trabalho na construção civil, “estágio probatório” da imensa maioria dos nortistas nas grandes cidades do Sul. Acabou operário na indústria têxtil. Meses depois, indicado por um amigo, logo foi labutar como auxiliar de alfaiate no centro do Rio. Aprendeu o básico do ofício e, décadas depois, em sua casa, pequenos ajustes e a barra das calças das crianças seriam sempre carinhosamente feitos por ele.

A alfaiataria fazia uniformes para a Aeronáutica. A proximidade certamente facilitou a entrada do jovem, em idade de prestar o serviço militar, naquela força. Não quis mais sair. O traje lustroso e os olhares das moças embeveciam o vaidoso rapaz. Mas principalmente, a estabilidade do soldo constante e as possibilidades de estudo e ascensão davam a importante sensação que estava vencendo rápido na vida. E, além disso, havia os aviões e as viagens, que cada vez mais faziam a sua cabeça. Lotado no Correio Aéreo Nacional, conheceu os quatro cantos do Brasil e vários países vizinhos. Animou-se a estudar e formou-se sargento em Guaratinguetá.   

            Mas a potencial carreira militar seria interrompida. A noite carioca chamava o jovem Arivaldo. Bem falante, namorador e com uma imensa facilidade de fazer amigos, desbravava com furor os bares e bilhares de uma Lapa decadente, mas ainda cheia de encantos. Por lá, conviveu, entre tantos outros, com Dercy Gonçalves, Pixinguinha e Nelson Gonçalves, de quem para sempre seria um ardoroso fã. Um sério acidente durante o serviço se somaria às dificuldades com a disciplina da Força Aérea. Ari acabaria reformado precocemente e pilotar aviões passou a ser um sonho acalentado de uma vida paralela que nunca chegaria a existir.

            A pensão que passou a ganhar da Aeronáutica não era muita, mas permitia a sobrevivência e até viagens para Tobias Barreto e Aracaju. Numa dessas viagens, apaixonou-se. Lourdinha, a bela moça, tímida e religiosa, tinha apenas 17 anos e estava prestes a se mudar da capital sergipana para o Rio de Janeiro, onde iria estudar e trabalhar, morando com a irmã mais velha. Conhecer as variadas atrações da Cidade Maravilhosa foi uma vantagem estratégica para o insistente e galanteador Arivaldo.

Em meio às turbulências dos anos rebeldes, viveriam um namoro de anos dourados. Passeios de lambreta, nascer do sol em Copacabana, jogos do Vasco no Maracanã, excursões a Paquetá. Muitos amigos e amigas. Alguns cariocas. A maioria, conterrâneos, aos quais os locais em tom jocoso, chamavam de “paraíbas”. Ari estava imerso numa rede informal de sociabilidades e auxílio mútuo dos “paraíbas”. E eram essas relações que o ajudavam a achar bicos que complementavam a renda para além da pensão.

O longo namoro com Lourdinha virou casamento e Ari decidiu arriscar a sorte como taxista. Os tempos eram duros e o negócio não deu certo. Com poucas perspectivas e um recém nascido de 3 meses, o casal acabou decidindo partir para São Paulo, cidade em que tinham parentes e onde todos diziam haver maiores e melhores oportunidades. Deixar o Rio e suportar o frio (chegaram em meio à garoa de julho) e a sisudez de primeira hora dos paulistanos não foi tarefa fácil. Foi em São Paulo, no entanto, que Arivaldo conseguiu estabilidade e construiu, de fato, uma família. Mesmo com saudades da longínqua Tobias e de um Rio romântico, a Paulicéia seria, para sempre, o seu lar.

Depois de penar alguns meses entre o desemprego e a função de vendedor numa pequena loja de sapatos, a oportunidade, enfim, apareceu. Os estudos dos tempos de Aeronáutica possibilitavam almejar um trabalho de escritório.  Um conhecido o indicou e Ari arrumou um emprego num escritório de contabilidade no centro da cidade. O “milagre” econômico da ditadura impulsionava a economia e uma enxurrada de novas leis, como a do FGTS, mudava o cenário das relações trabalhistas. No pulsante setor de construção civil  uma leva de pequenos empreiteiros, mestre de obras e pedreiros especializados precisavam de alguém que cuidasse de suas contas e da burocracia com o “pessoal.” Arivaldo virou esse cara. Sagaz, mas simples e educado no trato, conseguia ótimo trânsito do engenheiro “metido a besta” até o peão “rústico” recém-chegado do Nordeste.

A homérica viagem no Fusca, com a mulher e filhos (naquele momento dois meninos e uma menina. Outra menina ainda chegaria) para visitar a terra natal era uma inegável demonstração de “sucesso”.  De fato, pegando carona no turbilhão de algumas obras do Brasil Grande – metrô em São Paulo, rodovia Imigrantes, silos no Norte do Paraná – o agora Seu Ari dava assistência a um número crescente de pequenos construtores. Com a ajuda de alguns, ousou largar a condição de empregado e, no final dos anos 1970, abrir seu próprio escritório. Para dar conta, decidiu fazer, às noites, um curso de contabilidade.

As coisas pareciam prosperar. Lourdinha, seguindo a modernidade feminina de então, tirou carta de motorista. O Fusca pode ser trocado por um Opala usado e depois, por uma espaçosa Caravan. Com o apartamento financiado na Vila Mariana e as (ainda) boas escolas públicas da região, a família tinha uma decente vida de classe média baixa, sonhando em alguns momentos em tornar-se classe média de verdade.

O pequeno escritório de dois ambientes da Rua Senador Feijó era o castelo de Arivaldo e o centro da cidade seu espaço de ação. Para as crianças, era uma enorme diversão ir ao trabalho do papai e almoçar na cidade. Mais tarde, os dois filhos homens trabalhariam ali em algum momento como office-boys. Da janela de seu escritório assistiu, entre desconfiado, temeroso e orgulhoso, um dos seus filhos, ainda adolescente, se politizar durante a Campanha das Diretas. Mas, seu castelo também guardava seus segredos e os vestígios de uma, na maior parte do tempo, moderada vida boêmia que ele não deixava de manter.

De qualquer forma, Arivaldo procurava encarnar a figura do pai  provedor e rígido. Para tanto cultivava um peculiar bom humor ranzinza, frequentemente ironizado dentro de casa.  Mas, na verdade, Ari era um pai carinhoso e sensível. Como a maioria dos pais, teve mais facilidade em lidar com a infância do que com a adolescência dos filhos. Adorava brincar e passear com seus meninos e meninas. Os domingos pela manhã eram sagrados. Ibirapuera, parques de Interlagos ou as costumeiras visitas aos amigos e parentes, especialmente em Guarulhos e São Miguel.

  Educação, para ele, era fundamental. Junto com sua mulher, inculcou nos filhos o valor dos estudos. Com isso não havia trégua. De longe, seu maior orgulho na vida foi ter formado os quatro filhos. Os netos e netas de analfabetos se tornariam um professor universitário, um advogado e duas médicas. Sem os esforços descomunais do casal, o empenho particular de Lourdinha e a atenção e apoio de Ari isso jamais teria sido possível. Quando, por exemplo, percebeu no filho mais velho um gosto particular pela leitura, Ari não mediu esforços e recursos para comprar uma dispendiosa e quilométrica enciclopédia que tomava toda estante da sala. Encheu a casa de obras clássicas compradas no “círculo do livro” e nas coleções em fascículos de banca de jornal.  Em outro filho estimulou ao máximo sua vocação musical.



            Ser humano é ser complexo e contraditório. O filho, adolescente,  jamais entenderia como Ari muitas vezes votava na esquerda, mas criticava os direitos humanos “para bandidos” e apreciava programas de TV policialescos e sensacionalistas. Nunca compreenderia exatamente como se coadunava um autêntico orgulho das origens e um forte nacionalismo (invariavelmente expresso nos esportes que  curtia,  principalmente o futebol, o vôlei e o boxe, mas também o automobilismo) com um certo “complexo de vira latas”, que colocava brasileiros e latino-americanos sempre para baixo em relação aos norte-americanos e europeus.

Gostava do Silvio Santos e ao mesmo tempo adorava a rádio Cultura dedicada à música clássica. Chopin e Tchaikovsky eram suas predileções. E revelavam uma inusitada admiração pelo Leste Europeu. Divertia-se inventando uma ascendência polonesa para a família. O Brito do seu nome seria uma corruptela de um impronunciável sobrenome polaco. E o “Blauth” que colocou como nome complementar do segundo filho era atribuído a uma homenagem a um suposto bom jogador da seleção polonesa que vira jogar anos antes.

            Arivaldo amava, sobretudo, a vida e as pessoas. Prezava sobremaneira as amizades e a importância da lealdade. Para ele delações nunca poderiam ser premiadas. Era um ser da vida social. Curtia levar os amigos para diferentes lugares e mostrar novidades. Sua preocupação com o outro era sempre genuína e emocionada. Gostava de feiras e mercados. Generoso, não era incomum que fizesse uma boa “feira” e desse de presente numa visita surpresa para algum amigo ou parente necessitado.

            A crise econômica dos anos 1980 e as reformas neoliberais dos anos 1990 afetaram profundamente o mundo da construção que Arivaldo conheceu. Boa parte do que sabia fazer estava obsoleto e seu escritório-castelo entrou numa longa, lenta e definitiva decadência. De certa forma, foi sua decadência também. Com os filhos criados e com seus próprios rumos, a necessidade de recursos e de foco parecia menor. Então, em 2003, os excessos alimentares e etílicos, a negligência com a saúde e a ausência de exercícios físicos cobraram um preço muito caro. Arivaldo teve dois AVCs seguidos e só não morreu porque a mulher e a filha médica foram particularmente rápidas no socorro.

            Sobreviveu, mas nunca mais foi o mesmo. Com metade do corpo paralisado, passou a depender completamente dos cuidados da mulher. Lourdinha aposentou-se e passou a se dedicar com carinho e afinco ao amor de sua vida. Lúcido, Ari nunca se conformou completamente em ter no seu corpo uma prisão.  Apesar disso, teve momentos de muita felicidade. Foi uma alegria a chegada dos  netos,  que em 2016, seriam sete.  Também foi um momento especial a viagem de toda família para um Réveillon em Sergipe, com direito a uma excursão a Tobias Barreto e um emocionante almoço com os seis irmãos e irmãs de Ari àquela altura remanescentes.

            A coisa mais fantástica de ser historiador social é descobrir e estudar a importância das pessoas comuns na história. Como muitos já destacaram, 2016 foi um ano marcado pela morte. Neste ano, tão duro e difícil, tivemos a perda de dezenas de celebridades e figuras importantes. Algumas como Leonard Cohen, Mohamad Ali, Fidel Castro e Dom Paulo Evaristo Arns, de minha particular admiração.  Mas para mim, 2016 também foi o ano da vida. Em dose dupla. Leon e Miguel, tais como as flores no asfalto de que nos falava o poeta Drummond, chegaram trazendo imensa alegria no presente e uma inabalável esperança no futuro. Tivemos a felicidade de ver um encontro de Ari com os netos. Eles saberão que, num golpe do ciclo da vida, eu fui pai e perdi o pai no mesmo ano. Mas, certamente crescerão sabendo o quão incomum e extraordinário foi Arivaldo, esse homem comum. Descanse em paz, papai!


Após complicações derivadas de uma pneumonia, Arivaldo de Brito Fontes faleceu no dia 30 de dezembro às 19h20, cercado do amor e carinho de sua mulher, filhos, genros, nora e netos.

Paulo Fontes é historiador social do trabalho, professor do CPDOC/ FGV.


domingo, 27 de novembro de 2016

O axé da sala de aula


Ivana Stolze Lima (Fundação Casa de Rui Barbosa/ PUC-Rio)

Nos últimos dias me envolvi com a preparação para participar da mesa Religiosidade Afro-Brasileira e o Ensino de História, no Seminário ProfHistória Ensino de História da África, da cultura afro-brasileira e indígena na Unirio. É um mestrado profissional que funciona em rede nacional, que vem movimentando a pós-graduação dita acadêmica e, mais amplamente, vem movimentando a própria área de História. Passei várias horas lendo ansiosamente o máximo que podia de 3 dissertações fascinantes.
            O trabalho de Isabelle de Lacerda Nascentes Coelho, intitulado O Axé na Sala de Aula: abordando as religiões afro-brasileiras no Ensino de História (UFRRJ, 2016) (como percebem, subverti o seu título para esse relato), propõe uma preciosa "ferramenta" (ajô!) de papel e ideias, materializada em pranchas ilustradas para ensinar a filosofia, mitologia e epistemologia das religiões afro através da apresentação dos orixás, seus atributos, histórias e façanhas.
            O primeiro a abrir a roda, como não poderia deixar de ser, é Exu/Eleguá/Bará  e sua bela jogada de mestre pregando uma peça a pretensos donos da verdade. Disfarçado em um homem desconhecido, portando um barrete de duas cores, Exu passa por dois lavradores que desprezaram oferendas que lhe deviam ter feito. Até então amigos, passam a discutir sobre a cor do barrete do desconhecido. "É branco, com certeza", diz um deles, convencido que sua parcialidade é a única. "Vermelho, o mais vermelho possível", diz o outro. Acusações mútuas de cegos e mentirosos se sucedem, levando à briga e morte dos teimosos, incapazes de ouvir o outro e de pôr suas próprias visões de mundo em perspectiva.
            Quem conhece a história da escravidão e em especial as políticas senhoriais em relação às culturas africanas no Brasil, sabe que a tolerância nada mais foi que um estratégia de controle. O binômio repressão/tolerância foi usado em diferentes gradientes por delegados, juizes, senhores, feitores. O axé "deu uma volta" nessa lógica. O trabalho de Isabelle propõe ir além da chave da tolerância para propor uma ética da alteridade na sua sala de aula em Itaguaí. Esse trecho dá bem uma ideia da importância de seu trabalho para o desenvolvimento de subjetividades das crianças e jovens com que lida: "As atividades envolvendo narrativa mítica e recriação artística dos deuses do panteão afro-brasileiro através de desenho, foram de longe, as mais populares com a turma. Os momentos de debate, compartilhamento de ideias também foi bastante produtivo. No decorrer das discussões começaram a emergir desabafos, confidências, compartilhamento de memórias e experiências vividas com relação a diversas formas de preconceito e intolerância, não apenas ligadas ao tema afro-religioso. Este foi um momento importante de catarse coletiva e de fortalecimento dos vínculos de solidariedade, afetividade e empatia. Mesmo sendo bastante jovens, os estudantes se mostraram capazes de exercitar a autorreflexão e enfrentar seus próprios preconceitos." (p. 64)
            Os trabalhos dessas professoras/historiadoras tornam-se ainda mais relevantes e urgentes quando se considera as condições em que são gestados. Jessika Rezende Souza, autora de Entre a cruz e o terreiro: uma análise em torno da integração entre a religiosidade afro-brasileira e o ensino de história no Museu do Negro (UFRJ, 2016) diz que na escola onde trabalha teria sido questionada e desqualificada a abordagem do candomblé como não sendo tema de uma aula de história. Ooi??? Como assim não é tema da história? Em quase todas as disciplinas na minha atuação como professora de história do Brasil na graduação (e agora também na pós) esse tema se impõe, e olha que não deve ser só por eu ser filha de Ogun, mas por ser historiadora que preza um entendimento  complexo dos processos históricos. O trabalho de Jessika propõe uma visita cuidadosa e sensível ao Museu do Negro, sediado na Igreja do Rosário, abrindo assim a integração desse lugar de memória como uma forma de semear o conhecimento histórico em seus alunos. Jessika cutuca o currículo engessado e folclorizante, buscando as organizações negras, questionando a velha imagem da democracia racial e reclamando mais do que o "dever de memória", o "direito à história".
            Carolina Barcellos Ferreira traz um relato muito detalhado do que pode significar trabalhar com as "coisas de macumba" na sua prática de ensino em São Gonçalo. Ela e alguns colegas professores, cansados da eterna e inquestionada comemoração da Páscoa, promovem regularmente atividades para que os alunos sob sua responsabilidade saibam que o mundo é maior do que parece, com práticas que assegurem a expressão da diversidade religiosa. Em seu "Isso é coisa de macumba?" Elaboração de um material pedagógico de História sobre as religiosidades afro-brasileiras em museus do Rio de Janeiro (UERJ, 2016) , ela conta uma história muito tocante. Em visita ao Museu Histórico Nacional, diante do Templo de Oxalá, uma aluna não se conteve de medo e saiu correndo, conjurando o ato com um "cruz credo". Essa dura experiência poderia ter paralizado Carolina. Mas ela fez disso um tema de dissertação, construindo um projeto de observação de objetos religiosos em diferentes museus da cidade. Ela discute como e porquê cada objeto selecionado chegou ao museu, ajudando a entendê-los como parte da história a ser discutida. Em espaços tão diversos como no Museu da Maré, o Museu Nacional, e sua sala de aula, Carolina pacientemente busca mostrar que o mundo tem vários lados e perspectivas. Ao fazer isso, tanto libera os alunos que têm vergonha e medo de seguirem suas crenças afro-brasileiras como sobretudo talvez evite alguns futuros intolerantes. Todos os trabalhos do mestrado profissional em Ensino de História procuraram oferecer materiais a serem usados por outros professores, no formato de livros, jogos, videos, material eletrônico e outros. O de Carolina é um livro impresso onde disponibiliza um roteiro crítico e atividades para as visitas aos museus.
            Eu não poderia falar que em algum momento tive dificuldade em trabalhar com o candomblé nos meus cursos de história do Brasil. Talvez seja bom esclarecer, para quem não conhece a PUC-Rio, que ensinando lá há 23 anos nunca, absolutamente nunca, vi minha autonomia docente ser questionada e, formando professores de história e historiadores, além de sociológos, e meninos de outras formações, espero ter conseguido mostrar os conceitos que me fazem selecionar tal tema nos meus programas. Além de ser um grande tema para discutir os escravizados como sujeitos históricos, a presença das culturas africanas no Brasil, a superação da lógica da dominação pela da negociação e conflito, a história do candomblé mostra o conceito importantíssimo que é o de associação, a possibilidade de recriar espaços comunitários, de imprimir neles memórias reconstruídas, de pertencimento e de articulação política. Também acho que eu não devo isso apenas às leituras cuidadosas dos documentos, livros etc. Mas muito mais ao fato de ter sido acolhida no Ilê Omolu Oxum pela minha mãe, Ialorixá Meninazinha d'Oxum, lindo exemplo de história de vida, e por todos os outros pais e mães, e também meus filhos e filhas, irmãos e irmãs. Olorun Modupé.
            Afinal, agradeço às novas mestres por provarem mais uma vez que o axé da sala de aula está entre nós.

domingo, 6 de novembro de 2016

Justiça e violência na Bruzundanga

                                                                        Sidney Chalhoub (UNICAMP/ Harvard University)

            Ó vida, ó céus, ó azar... A Bruzundanga não dá sossego às historiadoras do futuro. Passaram a semana perplexas com um artigo assinado por dois procuradores da Lava-Jato, um deles ás no powerpoint, no qual se diz que "o debate" sobre as investigações de corrupção "transcendeu o meio jurídico e, para nossa sorte [deles, procuradores], ganhou o gosto popular" (grifo meu). Cáspite, como assim? O que tem a ver investigação judicial com "gosto popular"?
            Confusas, mas sempre intrigadas com aquela sociedade desaparecida havia milênios, as historiadoras foram aos alfarrábios de praxe, quer dizer, às obras completas de Machado de Assis, o grande clássico de sociologia bruzundanguense. Quincas Borba, capítulo XLVII. Rubião vinha ladeira abaixo, a pensar na bela Sofia, quiçá a vislumbrar em si mesmo os primeiros sinais de insanidade. Ao se acomodar no tílburi, lembrou de um episódio que presenciara na juventude, que decerto lhe marcara fundo o espírito. Agora, num momento de transe mental, caído por Sofia, preocupado com a reação dela aos seus avanços, a cena de outrora reapareceu inteira à sua frente. Uma das historiadoras exclamou de repente: "A cena do enforcamento! É isso! Toni Morrisson, Playing in the Dark. Lembram?" Ninguém entendeu nada.
            As historiadoras leram juntas e meditaram sobre a passagem seguinte, de Quincas Borba. Rubião vinha andando sempre, até que "Na esquina da rua dos Ourives deteve-o um ajuntamento de pessoas, e um préstito singular. Um homem, judicialmente trajado, lia em voz alta um papel, a sentença. Havia mais o juiz, um padre, soldados, curiosos. Mas, as principais figuras eram dous pretos. Um deles, mediano, magro, tinha as mãos atadas, os olhos baixos, a cor fula, e levava uma corda enlaçada no pescoço; as pontas do baraço iam nas mãos de outro preto. Este outro olhava para a frente e tinha a cor fixa e retinta. Sustentava com galhardia a curiosidade pública. Lido o papel, o préstito seguiu...". Rubião ficou "impressionado", dividido entre duas "forças íntimas" --uma que lhe mandava seguir caminho, outra "que fosse ver enforcar o preto". Rubião "fechou os olhos, e deixou-se ir ao acaso". O tal acaso fez com que seguisse o préstito, pensando todavia que não queria ver a execução. Queria ver só "a marcha do réu, a cara do carrasco, as cerimônias...". De vez em quando o préstito parava, gente se apinhava às portas e janelas, o oficial de justiça relia a sentença. Os muitos curiosos conversavam sobre o crime, diziam que o assassino era "homem frio e feroz". Sem dar por si, Rubião se encontrava em meio à "multidão compacta", no largo do Moura, o local da execução. Tentou voltar, mas cada um de seus pés foi para um lado. O réu subiu à forca, uma onda de tremor pegou a turba toda, Rubião sem entender "que mãos de ferro lhe pegavam da alma e a retinham ali". Seguiu-se o instante fatal: "o réu esperneou, contraiu-se, o algoz cavalgou-o de um modo airoso e destro; passou pela multidão um rumor grande, Rubião deu um grito, e não viu mais nada".
            O que, de fato, vira Rubião? Por que, num momento de transe, sua mente o levara de volta a esse episódio da juventude? Rubião descia da casa de Palha e Sofia no início da década de 1870. O narrador informa que ele presenciara o episódio do enforcamento quando ainda era muito jovem. É razoável supor que o acontecimento lembrado ocorrera nalgum momento da década de 1840. Leitores e leitoras do século XIX apreciariam a passagem suprindo algumas informações que as historiadoras futuras da Bruzundanga aprenderam com muita pesquisa e alguma imaginação. Assim, tanto o condenado quanto o carrasco eram escravos, forçados ambos a participar da "cerimônia". Além disso, o réu fora condenado no âmbito da lei de exceção de junho de 1835, aprovada após insurreições escravas em Minas Gerais e na Bahia, que abreviara os trâmites legais para o julgamento pelo júri e a execução, sem direito a recurso, dos escravos acusados de atentar contra a vida de seus senhores, familiares e feitores.
            Rubião vira um enforcamento que se fizera cicatriz na alma, algo que nunca compreenderia, mas que se tornaria ferida de novo, conforme ele próprio passara a circular nas altas rodas senhoriais da Corte. Ele vira a encenação da justiça como afirmação do poder e da violência do domínio escravocrata, em espetáculo público, na economia regrada da punição exemplar, destinada a inspirar terror por meio do jeito solene em que a violência máxima --o assassinato por parte do Estado- se oferecia à curiosidade popular. Era a execução da lei. Outras cousas ficavam submersas. Réu e carrasco, mui provavelmente cativos, o eram numa época em que centenas de milhares de africanos chegavam ao país por contrabando, para serem reduzidos à escravidão ilegalmente nas fazendas de café das províncias do Rio de Janeiro e, em seguida, de São Paulo. Exemplo de corrupção sistêmica no bojo mesmo da formação do Estado nacional. A cafeicultura, ou o centro-sul do país, reforçava a sua vocação de metrópole, de poder colonial interiorizado a sugar e exaurir a força de trabalho de africanos contrabandeados e demais escravizados comprados às províncias do norte e nordeste do país. Rubião viu um enforcamento e intuiu um dos sentidos mais profundos da história bruzundanguense.
            Corta, disse uma das historiadoras, como se percebesse que precisava despertar as companheiras da introspecção provocada pela leitura da passagem de Machado de Assis. "2016, ano do impichamento", disse ela, segurando entre os dedos um papel amarelecido e craquelê que encontrara no restolho do acervo de um obscuro historiador da Bruzundanga, cujo nome se perdera na noite dos tempos. Era a transcrição de trecho duma entrevista de Jurema Werneck, médica, ativista do movimento negro, feminista. As palavras eram de uma lucidez cortante; a ledora as pronunciava de um jeito calmo, pausado, como se não fosse possível lê-las doutro modo.
            Jurema dizia "que a Lava Jato é complexa porque está, acredito que está, pegando criminoso. Acredito também que está usando meios ilegais". Referia-se em seguida às "pessoas que tem que ficar na cadeia (...) até confessar, até fazer uma delação premiada. Isso é um absurdo". Prosseguiu assim: "eu queria dizer que essa experiência (...) não é inovação. (...)De onde eu vim isso é todo dia, não é? Todo mundo está dizendo que não tem democracia no Brasil, que isso é uma ditadura. Isso era o que a gente dizia. (...) O nosso discurso [agora] está na rua, na boca dos outros [risos]. A gente disse que era assim mesmo, a polícia é assim, o juiz é assim, não é? Os partidos são assim, os brancos são assim. Porque são assim. Só que agora estão estendendo [esses procedimentos] aos brancos do PT, que é menos branco (...) porque é PT. Eles são menos brancos que os outros brancos. (...) Eles são menos brancos que os outros porque são do PT. (...) Deve ser tudo nordestino, na cabeça do reacionário, é tudo nordestino, então é menos branco. Então estão tratando esses brancos como nos tratam", mas a nossa "democracia" sempre foi essa.
            Silêncio profundo no recinto da entrevista, anotou o historiador. À margem, talvez porque fosse chegado a uma tirada retórica, rabiscou que Jurema "deixara exposto o ventre da história bruzundanguense". Nesse ponto, as historiadoras reviraram os olhos, entre condescendentes e compreensivas. De qualquer modo, acharam que havia ali uma hipótese sugestiva a respeito daquilo que unia Rubião e os procuradores, algo que os fazia andar às escuras (playing in the dark...).

            As historiadoras ainda não descobriram até quando continuou o tribunal de exceção high tech chamado Lava-Jato. Querem acreditar que prosseguiu até que todos os corruptos fossem punidos. Porém a investigação deixou de cativar o "gosto popular" depois que juízes e procuradores foram obrigados a se comportar segundo as responsabilidades de suas funções, tornando-se sérios ao ponto de a mídia corporativa não lhes dar mais a mínima bola. A partir daí a Bruzundanga foi feliz para sempre enquanto durou. 

Sidney Chalhoub

sábado, 17 de setembro de 2016

O segredo do procurador

                                                                  Sidney Chalhoub (UNICAMP/ Harvard University)


            Não tenho provas, mas estou convicto de que o sapientíssimo Procurador Dallagnol é leitor contumaz de Machado de Assis. Tudo nele é sofisticado, retórica supimpa, slides complexos, lógica irreprimível. Há também a elegância da retórica e a fineza das metáforas, ao se referir a uma investigação a “avançar verticalmente para cima” para chegar “ao topo da pirâmide”, no uso abundante de substantivos com conotação adjetiva, como o epíteto de  “comandante” pespegado ao ex-presidente Lula, dito “comandante em chefe de uma quadrilha”, “maestro de uma orquestra criminosa” e cousas que tais.  
            Quantas “evidências” de que o dito Procurador leu “O segredo do bonzo”, de Machado de Assis, publicado pela primeira vez no longínquo ano de 1882! Mais do que isto, inspirou-se nesse texto em seu pronunciamento desta semana, o qual deixou a sociedade bruzundanguense embasbacada. Parece até que subiu ao púlpito com o textinho malocado no bolso interno do paletó, mas não posso provar o que me disse quem o delatou, apesar de eu ser, no que tange a delações, tão crédulo quanto a mais pia beata deste mundo. Conhecem o conto machadiano? Pois lhes dou numa cápsula.
            Era uma vez... O conto não é meu, vamos direito ao ponto. Em tempos remotos, num lugar que não importa qual seja, havia um sábio chamado Pomada, muito respeitado entre os bonzos. Pomada formulara uma doutrina capaz de regenerar a humanidade, de livrá-la dos grilhões e misérias da realidade, “visto não ser o homem todo outra cousa mais do que um produto da idealidade transcendental”. Cá está o centro da doutrina pomadista: “se uma cousa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente”. Para chegar a essa síntese, Pomada observou vários fenômenos complexos. Por exemplo, se uma jabuticabeira está cheia de frutos, mas ninguém os degusta, ela vale tanto quanto uma planta bravia que só dê espinhos. Se alguém acumula enorme sabedoria, mas ninguém o vê como um sábio, de nada valerá tanta sabedoria. Não há espetáculo sem espectador, nem verdade sem opinião. Em outras palavras, a opinião produz a verdade.  
            Pomada se viu logo cercado por um círculo fiel de discípulos dispostos a sair pelo mundo a praticar seus ensinamentos. Patimau explicava às multidões a origem dos grilos, que nasceriam da cópula entre o ar e as folhas de coqueiro. Languru descobrira o princípio da vida, que estaria numa gota de sangue de vaca. E assim por diante, com esses varões astutos a utilizar muita arte para “meter” essas ideias “no ânimo da multidão”. Figuras que tais passaram a desfrutar da “nomeada de grandes físicos e maiores filósofos”, até que chegou a vez do experimento de Diogo Meireles, destinado a colocar todos os outros no chinelo.
            Grassava no reino uma epidemia estranha cujo principal sintoma era a inchação descomunal dos narizes. Havia pessoas que ficavam com a cara tomada pelo fungador, não suportavam o peso, ficavam tristes, suicidavam-se. Diogo Meireles, médico habilíssimo, concluíra que não haveria mal em extrair os narizes aos doentes, prontificava-se a fazer a cirurgia. Todavia, não encontrava gente disposta a isso, pois, no que concernia a narizes, os afetados preferiam "o excesso à lacuna”. Até que Diogo Meireles teve uma ideia inspirada na ideologia pomadista. Mandou reunir físicos, filósofos, autoridades, todo o povo enfim, e comunicou à multidão, ao que parece por meio de slides de powerpoint enviados do futuro, por internet galáctico-sideral, que revelaria um segredo capaz de eliminar o sofrimento causado pela epidemia reinante. A solução era simples: “substituir o nariz achacado por um nariz são, mas de pura natureza metafísica, isto é, inacessível aos sentidos humanos, e contudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o cortado”. Após alguma hesitação, apareceram pacientes. Diogo Meireles extraía os narizes doentes com grande destreza, depois fingia pegar numa caixa um nariz metafísico e o implantava na cara do paciente, com tantos ademanes e afetação científica que todos à roda juravam ver o que não podiam ver. A prova cabal do sucesso das operações era que os desnarigados voltavam logo a usar lenços de assoar.   
            Comentei com um amigo esse paralelo entre os segredos do bonzo e do Procurador da Bruzundanga. Ele objetou: o Procurador não é hipócrita, age por convicção. Sou justo, concedo ao Procurador o benefício da dúvida, ou a presunção de inocência, para lembrar uma expressão de outrora. Mas aí lembrei de Brás Cubas. O narrador das Memórias póstumas sabia que seu pai havia fabricado uma genealogia falsa para o nome da família. Incapaz de confessar que tão rica linhagem descendia de um tanoeiro, papai Cubas dizia que esse nome “fora dado a um cavaleiro, herói nas jornadas da África, em prêmio da façanha que praticou, arrebatando trezentas cubas aos mouros”. Em suma, arrumara-se uma origem nobre e guerreira para a família, vinculada a um episódio imaginário da guerra da cristandade contra os mouros. O que mais impressionava Brás Cubas era o fato de o pai ter passado a acreditar piamente na mentira que inventara: “uma imaginação graduada em consciência”. E via nisso vantagem, arrematando a peça com a seguinte filosofice: “o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é um sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo”. Por hipocrisia ou auto-ilusão, o fato é que papai Cubas dizia de uma realidade que não via, não podia ver.

            Enfim, pode ser que o Procurador acredite naquilo que fala, pode ser que não. De qualquer forma, o episódio da semana é um belo exemplo da ideologia pomadista vigente na Bruzundanga contemporânea: “se uma cousa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião...”.